Hoje o mundo voltou a fazer sentido. Nomes encaixaram, rostos fixaram-se, memórias alinharam-se com uma nitidez dolorosa. Durante breves horas fui inteiro. Reconheci a casa. Reconheci-me a mim. Mas a clareza traz uma inevitabilidade. Desde o primeiro instante que sei o desfecho. Já sinto falhas a abrirem-se — como pequenas erosões; ligações a desfazerem-se enquanto ainda as absorvo. Tento agarrar os pensamentos que me escorrem por entre os dedos, certezas que não se deixam reter. Nada permanece. Tudo desvanece na névoa. Em breve esquecerei até este momento. Este retorno não é uma dádiva. É a consciência cruel de uma perda inescapável.
-M


