Eles viriam à noite. Foi o que me ensinaram a acreditar. Durante o dia, a casa era iluminada, normal, segura. Quando a noite caía, trancava-me — luzes apagadas, respiração apertada, à espera de sons que não saberia identificar. Aguentei durante semanas. Meses. Até que algo começou a mudar. As manhãs demoravam a chegar. A luz nascia fraca e indecisa. Um dia, esperei pelo amanhecer, aquela redenção tão esperada. Nunca veio. Apenas o escurecer — contínuo, espesso, definitivo — permaneceu à minha volta. Nesse momento compreendi. Já tarde demais. A manhã nunca voltaria a surgir. Agora, e pela primeira vez, apenas a noite existia.
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