Estava no parque, ao fim da tarde, quando vi a primeira sombra surgir onde não deveria haver nenhuma. Não vinha de árvore, banco ou pessoa. Projectava-se isolada sobre a relva. Surgiu outra. E outra. Espalhavam-se depressa, sem padrão discernível. Abstraído, um homem pisou uma. A perna foi a primeira a desaparecer — sem sangue, nem gritos. Em segundos, ele deixou de existir. O parque encheu-se de buracos que devoravam tudo, manchas negras numa superfície imaculada. Corri, sem destino. Caí, e uma subiu-me pelo braço. Não doeu. O que senti foi muito pior: o nada de ser esquecido enquanto ainda aqui estava.
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